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Hipófises 

Reproduzimos abaixo um interessante texto que foi publicado na revista Panorama da Aqüicultura em 1998:

 

A Qualidade das Hipófises

 

                                                                           

Péter Garádi

                                                              TEHAG Warm Water Fish Hatchery,

HUNGRIA

 

Na propagação artificial de peixes geralmente se usam as metodologias de indução hormonal. Até pouco tempo atrás, o único “produto” para este processo era a hipófise natural, coletada de outro peixe. Apesar de nas últimas duas décadas terem sido elaborados muitos produtos sintéticos, ainda é comum o uso da hipófise natural, principalmente a de carpa comum (Cyprinus carpio).

Podemos afirmar que os hormônios sintéticos modernos são excelentes, mas ao compararmos com hipófises de carpa detectamos que são mais específicos. Estas hipófises são usadas atualmente para a reprodução de cerca de duzentas espécies de peixes em todo o mundo, enquanto que não existe nenhum hormônio sintético eficaz para uma variedade tão grande de peixes. Outra observação é que os hormônios sintéticos, em geral, exigem equipamentos precisos para a quantificação das dosagens, comuns em laboratórios científicos, mas indisponíveis para a maioria dos produtores de alevinos. Já existem, entretanto, alguns hormônios sintéticos com apresentação especial para a praticidade do produtor, por exemplo, o Ovopel, pois são sólidos e dispensam balanças sendo contados por unidade.

 

Comparação da hipófise de carpa com hipófises de outras espécies

 

Por que é tão usada a hipófise de carpa, apesar de sabermos que outras espécies também já deram bons resultados desde a época de Rodolfo Von Ihering e de Gerbilszkij? Para conhecermos os motivos que privilegiam a carpa temos que analisar alguns dados da biologia da espécie.

Os efeitos dos hormônios de reprodução (por exemplo LH e RH) são melhores dentro da mesma espécie. Em outras espécies aparentadas, os hormônios também mostram resultados, porque esse parentesco filogenético significa também uma semelhança bioquímica.

Podemos dizer, porém, que não existem outras espécies com hormônios tão eficazes quanto a carpa. A explicação disto está no ambiente de origem. A carpa é originária da Ásia Ocidental (Lago Cáspio) e da Ásia Central (Lago Aral) e se formou no período Pleistoceno. Nesta área geográfica os fatores ambientais eram e são extremos. Por exemplo, a temperatura do ar no inverno pode chegar a – 40°C e a espessura do gelo no Lago Aral pode chegar a um metro. No verão a temperatura do ar pode  chegar a 45°C a da água  a 30°C. A salinidade também varia muito por causa das pesadas chuvas e das grandes secas que às vezes duram de 4 a 5 anos. Outros parâmetros, como o oxigênio, também variam muito. Durante a evolução a carpa se adaptou a estas condições ambientais extremas e por isso, é encontrada desde o sul da Noruega até países equatoriais e nos rios, lagos e águas salobras. São fatores que, sem dúvida, fazem da carpa o melhor “doador” entre os peixes.

 

As diferentes origens

 

Na hipófise, a quantidade dos hormônios varia. Sempre antes da maturação gonadal o nível dos hormônios é alto e depois da ovulação é mínimo. Num clima tropical e subtropical os indivíduos não maturam ao mesmo tempo. Numa mesma época, numa mesma população, podemos encontrar indivíduos em diferentes fases de maturação e se coletarmos as hipófises de toda a população teremos um bom teor de hormônio em somente uma parte das hipófises a serem utilizadas. Por isso, prefere-se hipófises coletadas em países de clima temperado. Nestas regiões, a temperatura sincroniza todos os peixes na mesma fase de maturação. 

Na Europa Central, após a época da ovulação (desova), no mês de maio, o nível dos hormônios é mínimo. Após esta fase começa a época de maturação (julho-outubro) quando o nível dos hormônios está aumentando e chega ao máximo. Aqui, começa a época de hibernação, que vai até março (por causa do rigoroso inverno). Finalmente, entre março e maio, a última fase de maturação, diminui o nível. Isto significa que só é bom coletar hipófises entre outubro e março e é assim que se procede. Fora isso, a hipófise quase não tem valor.

Apesar do clima do norte dos Estados Unidos ser semelhante ao da Europa Central, há um problema com a coleta de hipófises. A coleta nos EUA acontece com carpas de águas naturais, e não de viveiros de piscicultura. Estas águas congelam bem cedo e somente descongelam em abril. Neste período não há pesca. A principal época de pesca é entre julho e setembro, após a ovulação, quando o nível dos hormônios é baixo. Portanto, estas hipófises têm menor eficácia e menor valor.

Outro problema acontece com a hipófise em pó. Muitas vezes o material inclui pedaços de outras partes do cérebro, em que não há hormônios, sendo portanto adulterado.  

Para todos os produtores ficam estas informações no sentido de conseguirem sempre os melhores resultados na prática da reprodução de peixes.